A Ideologia, a Política e o Indivíduo.



              De acordo com João Ubaldo Ribeiro (1998), todos têm uma ideologia. Mesmo que algumas pessoas deixem esta transparecer menos que outras ou que nem mesmo saibam que possuem uma. E segundo Adérito Nunes (1961): alguns sociólogos utilizam o termo ideologia para definir o conjunto de ideias, crenças e modos de pensar característicos de um grupo, seja nação, classe, profissão ou ocupação, seita religiosa e partido político. Deste modo, pode-se notar com notícias do dia a dia ou até mesmo verificando o feed das redes sociais, que atualmente as pessoas têm deixado transparecer, em peso, ainda mais os seus ideais ou passam a adotar um e o defende daquele que venha a se opor. Nesse contexto, verifica-se que esse conjunto de convicções se faz presente por toda a sociedade e que esta pode vir a causar sérios empecilhos. Por meio desta ótica, importa estabelecer um debate no intuito de apontar os perigos que o radicalismo ideológico pode causar ao individuo e a sociedade, assim como os radicais políticos são usados como massa de manobra pelo seu representante.




              A priori, é válido ressaltar que a ideologia, em seu conceito, não é algo ruim, mas quando se trata de um ideal cego e com falsos fundamentos positivos sociais, isso sim pode vir a ser um grande revés. Nesse sentido, pode-se afirmar que qualquer tipo de extremismo é ruim e ameaçador, pondo em risco vidas humanas. Um bom exemplo a ser mencionado é o Nazismo. Este ideal, criado por Adolf Hitler, pregava que a raça ariana era uma classe superior e qualquer um que não atendesse os requisitos impostos por essa sociedade ou se opusesse, deveria ser punido com tortura e morte. Ainda concernente a isso, pode-se fazer um questionamento um tanto quanto interessante: como as pessoas boas conseguem tomar para si valores que muitas vezes são antiéticos e/ou desumanos? A resposta é bem simples, e Nelson Garcia (1999) responde muito bem. Segundo o autor, em seu livro Propaganda: Ideologia e Manipulação, mesmo um junto de pessoas formulando os seus conceitos tentando ocultar seus reais objetivos para, assim, conseguir um maior número de adeptos, ainda há a possibilidade de estes perceberem e desintegrarem-se do grupo. Concernente a isso, os indivíduos que propagam suas ideias, muitas vezes buscam falsear a verdade e impedir de alguma forma que os seus seguidores tenham acesso a realidade em volta de si. Uma afirmação feita neste livro condiz muito com o que também é dito na obra de Abraham (2017), chamada Política, ideologia e conspirações: as sujeiras por trás das ideias que dominam o mundo. A obra, mais voltada à ideologia política, basicamente diz que a sociedade foi dividida em duas ou mais torcidas em uma falsa disputa, e os que nem se quer precisam lutar são quem realmente saem ganhando, pois estes estiveram juntos o tempo todo em um terceiro lado, eles não estavam disputando, estavam apenas ocupando seus seguidores enquanto mantinham o poder, e quem lidera esses grupos, mesmo em defesa dos pobres, são pessoas de alta classe e, consequentemente, possuem uma renda superior a de seus liderados. Em síntese, os seres humanos não conseguem fugir das características ideológicas, seja ela qual for, o que lembra muito uma frase de Paulo Freire: todos são orientados por uma base ideológica. A questão é: sua base ideológica é inclusiva ou excludente? Sendo assim, faça-se necessário que todos saibam os reais efeitos positivos e negativos da causa a qual está defendendo e que não tomem os seus valores como verdade e justiça absoluta.

           
     


Outrossim, no que diz respeito ao extremismo, o viés político pode ser classificado como uma das maiores formas de manipular uma massa, pois esta também atinge a todos ao redor do alienado. O filósofo Aristóteles dizia que todo ser humano é um zoon politikon, traduzindo significa “animal político”, o ser que vive para a sociedade, em sociedade. Seguindo essa lógica, João Ubaldo (1998) também afirma em sua obra que a política é da natureza do homem e mesmo aqueles que se abstêm de se posicionar estão naturalmente exercendo um direito que lhes é facultado pelo sistema político em que vive. Muitos se consideram ou se consideravam “apolíticos”, até mesmo Nietzsche, um filósofo renomado, ele apresentava o desinteresse pela política como uma opção, e não se envergonhava disso, em uma correspondência escrita em 1868 ele disse a seu amigo Rohde: “felizmente para mim, quase nunca se fala de política, pois eu não sou um zoon politikon, e essas são coisas em face das quais eu me eriço como um porco-espinho”. No entanto, preferir não se envolver tanto assim com a política não é o maior problema, o maior revés é quando uma massa é alienada e passar a defender determinadas especificações achando que está sendo justo. Como dito anteriormente, nesse jogo aqueles que saem ganhando são os que não precisam lutar, mas para que os ludibriados não se deem conta do que está a ocorrer, eles são mantidos ocupados, para tanto, cria-se a rivalidade e o confronto de ideias. Colocam socialistas contra liberais, comunistas contra capitalistas, esquerdistas contra direitistas e assim por diante. O mais curioso disso tudo, é que todos os grupos mencionados pensam que os seus ideais são o caminho para que se construa um mundo mais justo para todos, com mais oportunidades, com menos falhas e confrontos, quando na verdade isso não passa uma ótica simplista de se resolver um empecilho complexo, um falseamento da verdade. E são essas tentativas extravagantes de transformar o mundo em um lugar melhor que fazem com que as pessoas vivam em um verdadeiro inferno. Trazendo novamente o exemplo do Nazismo, Hitler se aproveitou da fragilidade do momento pelo qual a Alemanha estava passando e então ludibriou os alemães com os seus ideais excludentes. Sendo assim, aqueles que apoiaram seu governo, se tornaram uma massa de manobra que veio a ser a maioria dominante, estes achavam que estavam sendo justos e que daquela forma o país seria um lugar melhor. Desse modo, nota-se a importância das pessoas se policiarem quanto aos novos princípios que elas passam a seguir e de lutar contra qualquer tipo de repressão, mesmo que ela não seja uma vítima.



            Os atuais conflitos ideológicos e políticos não são recentes, se parar para refletir e analisar percebe-se que muitos problemas são históricos ou reflexos do que ocorreu anteriormente. Mesmo que o século XXI seja chamado de “a era da informação”, os meios de manipular as pessoas se modificaram e se adequaram com esse tempo, logo é necessário que a preguiça de ler conteúdos de qualidade e buscar informações confiáveis seja exterminada, pois sem o conhecimento, sem o pensamento crítico a sociedade não evolui, as adversidades continuam a persistir e os que já mandam continuam no poder. Assim como Gary Allen e Larry Abraham afirmam em seu livro, tendo o conhecimento da verdade, qualquer um pode tomar decisões com mais consciência, e saber de fato, quais causas, movimentos e ideais valem a pena participar. Para tanto, o melhor ponto de partida seria na educação, pois esta é o que molda a sociedade, mas educação não é só conhecimento, é também respeito, empatia e saber conviver com as diferenças. Então investir em educação, reforçar a cultura da leitura e a curiosidade do saber, ajudará consideravelmente para que no futuro tenha mais pessoas com conceitos próximos daquilo que colabora para uma vida harmoniosa em sociedade. A união do que cada grupo distinto da sociedade pode oferecer de bom, já ajudaria bastante para que algo mais próximo dos ideais inclusivos que dos excludentes seja alcançado.

Texto escrito por Djhórdan Gomes.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


RIBEIRO, J. U. Política: quem manda, por que manda, como manda. Editora Nova Fronteira. 2ª ed. Rio de Janeiro, 1998.
NUNES, Adérito S. Introdução ao estudo das ideologias. 1961.
GARCIA, Nélson Jahr. Propaganda: ideologia e manipulação. Rocket Edtion, 1999.
ALLEN, Gary. ABRAHAM, Larry. Política, ideologia e conspirações: as sujeiras por trás das ideias que dominam o mundo. Faro Editorial. 1ª ed. Trad. Michelle Neris da Silva. Brasil, 2017.
DANAT, Céline. F. Nietzsche ou a “política” como “antipolítica”. 2013.

Comentários

  1. É um bom texto, bem elucidador, bem estruturado e abrangente, com referências pertinentes e muito expressivo quanto a realidade da área politica e social, nas conexões entre estas e quanto a assomar a necessidade de atenção com as propostas daqueles que incitam lutas em prol de ideais próprios.

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